16.9.05

JESUS NUM BAR

Já rio e raio foste
e o vício do vinagre
te afeiçoou aos bares
onde homem te fizeste
com a ruga celeste
de chegares sempre tarde.

O encontro seria
a noite em que nasceras,
borboleta de açúcar
no palato das feras.

Entanto do Natal
despetalando vamos
o malmequer de rum.
E existes porque faltas
ó tanto de nenhum!

Natália Correia
Natália Correia nasceu na ilha de S. Miguel, Açores, a 13 de Setembro de 1923. Ainda criança, veio estudar para Lisboa. Exerceu a sua actividade criadora em campos tão diversos como o ensaio, o romance, o teatro ou a investigação literária. Mas foi sobretudo na poesia que o seu talento de escritora vanguardista e independente de quaisquer agrupamentos poéticos ganhou plena expressão. Natália Correia, cuja escrita alguns críticos classificaram como surrealista, outros como barroca e outros, ainda, como romântica (entre todas, a classificação preferida pela própria), foi na verdade uma escritora cuja originalidade e versatilidade não podem ser compartimentadas em qualquer escola literária. Figura destacada da resistência ao fascismo, vários dos seus livros foram apreendidos pela censura. Manteve colaboração em vários jornais e revistas literárias, como O Sol e Seara Nova, tendo dirigido, depois do 25 de Abril de 1974, a Vida Mundial. Em 1979 foi eleita deputada à Assembleia da República. Natália dava largas ao seu invulgar talento oratório – a que não era estranha a coragem combativa que a moveu em vários momentos de intervenção política pública – nas suas polémicas intervenções parlamentares enquanto deputada (1980-1991) e nas tertúlias artísticas: primeiro em sua casa, mais tarde no bar Botequim, que fundou em 1971 com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, e onde durante os anos setenta e oitenta do século XX se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa – foi amiga de António Sérgio (esteve associada ao Movimento da Filosofia Portuguesa), Cruzeiro Seixas, David Mourão-Ferreira (“a irmã que nunca tive”), José-Augusto França (“a mais linda mulher de Lisboa”), Luiz Pacheco (“esta hierofântide do século XX”), Mário Cesariny, Almada Negreiros, Eugénio de Andrade... – e muitos escritores estrangeiros – Henry Miller, Henri Michaux, Graham Green, Ionesco... Faleceu em Lisboa em 1993. (Colagem)