9.3.06

SOLIDÃO A DOIS

Anjo, triste
de serenidade obscura.
Com o asfalto trepidante
sob a pele de veludo difícil.
Canção nocturna e fatal
sem solução;
guardador de Igrejas encerradas,
asas cansadas,
voo interrompido
por solidões anémicas e cruéis.
Bebedor de absinto,
sem motivo, sem nada.
Gritador de uivos
- o que encerra à noite
as portas da madrugada.
Sem nome nem direcção
filho abstracto e nu duma não-geração.
Ferida aberta na avenida indiferente,
crepúsculo de gente.
Criatura estranha, indefinida
defensor da minha escuridão.
Tenho-te como cúmplice, um anjo sujo
e sinto-me – apenas – só.

Artur Rockzane
Artur Rockzane nasceu no Porto em 1953. Performer e poeta, autor de edições caseiras, algumas delas perdidas, outras dispersas e fragmentadas, viu poemas seus incluídos na antologia Sião (1986, Frenesi), organizada por Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião. Em 1983 publicou na Fenda o livro Cavalos, Heróis e Lunáticos. Tem ainda dois livros publicados nas Quasi. »